Teologia e Arte Sequencial


Este blog é um espaço que traz assuntos relacionados ao universo das histórias em quadrinhos sob o olhar de uma teologia de fronteira, isto é, de um pensamento teológico interdisciplinar voltado à arte, à cultura, ao pensamento de Rubem Alves. É igualmente um espaço para divulgação das pesquisas, trabalhos e exposições (de pesquisas e artigos científicos) desenvolvidos por mim, Iuri Andréas Reblin.


Portanto, se você está interessado(a), curioso(a) ou é fã de algum dos temas acima, sinta-se bem-vindo e bem-vinda e à vontade para interagir!

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terça-feira, 17 de abril de 2012

Entrevista ao Site da Faculdades EST

Abaixo na íntegra a entrevista publicada no site da Faculdades EST:
(Acesse o link original da entrevista clicando aqui)




17/04/2012 - Nesta entrevista, o Prof. Dr. Iuri Andréas Reblin situa as histórias em quadrinhos como lugar profícuo para o debate de temas teológicos em diálogo com a superaventura.

Tendo a sua tese de doutorado aprovada com distinção no contexto do Programa de Pós-Graduação da EST, nesta entrevista o Prof. Dr. Iuri Andréas Reblin situa as histórias em quadrinhos como lugar profícuo para o debate de temas teológicos em diálogo com a superaventura.
Popularizadas na década de 40 do século passado, as narrativas dos super-heróis foram, no início, interpretadas como uma ameaça aos valores aristocráticos na medida em que, enquanto cultura de massa, colocavam em xeque os parâmetros hegemônicos relacionados às produções culturais.
Segundo Reblin, a vida do super-herói poder reunir tanto características humanas quanto divinas, situando-o como “uma paródia de nós mesmos”, das nossas crenças, medos e valores.
A tese sugere que a leitura atenta das superaventuras contribui para o debate em torno de questões caras à teologia latino-americana, tais como violência, direitos humanos e gênero. Também favorece o discernimento sobre questões relacionadas à teologia tradicional, tais como vida e morte, ressurreição e ética. Por fim, a superaventura adentra assuntos que se tornaram motivo de conflito e tensionamento entre o religioso e o secular, a exemplo de aborto, eutanásia e relação homoafetiva.
Confira abaixo a entrevista completa de Iuri, atualmente inserido no quadro docente da Faculdades EST.

Por que os quadrinhos, historicamente, foram desprezados pela comunidade acadêmica enquanto objeto de pesquisa?

Devido a uma soma de fatores, na verdade. Durante a primeira metade do século passado, havia a compreensão de que a arte e a cultura (leia-se: a chamada cultura erudita ou alta cultura) e os valores aristocráticos estavam em risco por causa da ascensão da indústria cultural, da reprodução em série. Acreditava-se que as obras de arte, a música erudita não poderiam ser reproduzidas, consumidas e comercializadas em larga escala sob o perigo de se converter a arte em Kitsch. Os teóricos da Escola de Frankfurt, por exemplo, levantaram diversos questionamentos sobre o status das produções culturais diante da ascensão do contexto pós-Revolução Industrial e sugeriram, inclusive, como a cultura poderia ou deveria ser entendida nesse contexto. As Histórias em Quadrinhos surgem exatamente no meio disso como uma expressão artística desse novo cenário social. Com a explosão dos quadrinhos nas décadas de 1930, mas, especialmente, de 1940, os estudiosos voltaram sua atenção para o que estava acontecendo à sua volta. A repercussão e o consumo estrondoso dos quadrinhos levantaram questionamentos acerca da salubridade dessa leitura. E, para complicar a situação de vez, um renomado psiquiatra alemão, naturalizado estadunidense, chamado Fredric Wertham, afirmou que as histórias em quadrinhos estimulavam a violência, o sadismo e a delinquência juvenil. A repercussão de suas afirmações, aliada a uma imprensa conversadora que criou mais polêmica ainda sobre o assunto, foi gravíssima para as histórias em quadrinhos, causando, inclusive, uma retranca artística nas suas produções.


Como foi a receptividade da tua tese no contexto do Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST?

Minha tese sobre quadrinhos em geral e sobre a superaventura em especial no contexto do Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST foi uma proposta que amadureceu ao longo dos anos. Minha preocupação com as produções artístico-culturais da era contemporânea já me acompanhava desde a graduação no Bacharelado em Teologia. Já naquela época, eu buscava relacionar o pensamento teológico com o cinema e as histórias em quadrinhos. Meu Trabalho de Conclusão de Curso, por exemplo, foi um ensaio sobre a axiologia e a religiosidade nas histórias em quadrinhos, em especial, numa história do Superman. Ao ingressar, anos mais tarde, no Mestrado, eu apresentei uma proposta similar, mas eu senti que eu precisava encontrar um referencial teórico teológico que fornecesse a sustentação necessária para essa incursão analítica. Foi nesse processo que me deparei com a reflexão tradicional clássica da teologia que me questionava de revesgueio: “o que a teologia tem a ver com histórias em quadrinhos?”, “o que a teologia tem a ver com super-heróis?”. Nas entrelinhas, a minha interpretação era a seguinte: “não perca o tempo com bobagens”. “essa é uma pesquisa desinteressante para a academia”. O que aconteceu foi que eu me deparei, na verdade, com as mais distintas reações, evidentemente, como eu as percebi. Havia aqueles que queriam ver como eu me sairia com o assunto na área, os curiosos, havia aqueles que me apoiavam e aqueles que desconfiavam das minhas intenções, como acontece em toda a academia: pessoas diferentes, tradições diferentes, intenções diferentes de pesquisa, etc. Lembro-me de certa ocasião em que um professor, que trabalhava no programa na época, soltou uma gargalhada na sala de aula quando mencionei que minha pesquisa se ocupava com o Homem-Aranha. Claro que ele logo viu que não se tratava de piada. Na época, não foi “nada de mais”, exceto que eu fiquei conhecido como “aquele que pesquisa o Homem-Aranha”. Nos bastidores, as pessoas, vira e volta, vinham conversar comigo e me sondavam para tentar saber mais a respeito, para dizer que liam ou não liam, leram ou não leram quadrinhos, mas que assistiam filmes de super-heróis, etc. Enfim, esse mesmo professor apresentou possibilidades teóricas de outras áreas do saber interessantes para minha pesquisa, mas, apesar disso, o recado estava dado. Mesmo que tenha sido em tom de brincadeira, eu sabia que ninguém me levaria a sério se eu não trouxesse um referencial, um quadro teórico capaz de suprir a ponte que havia entre a teologia e as produções culturais. Ou seja, eu sentia, por um lado, nitidamente a pressão de um pensamento teológico clássico, mas, por outro lado, também encontrava simpatizantes das minhas ideias. Havia uma turma que discutia fortemente o pensamento do teólogo alemão Paul Tillich, o qual se ocupou magistralmente com a arte e as expressões culturais, delineando, inclusive, um método muito interessante de análise da cultura. Acreditavam que o que iria acontecer era eu seguir naturalmente o mesmo caminho e fazer uma leitura das histórias dos super-heróis baseando-me no pensamento tillichiano. Mas, na verdade, o que aconteceu antes foi outro processo: esse constante questionamento da relevância da minha pesquisa me deixou inseguro em relação à própria teologia. Será que estávamos todos falando a mesma linguagem? Será que era eu que não conseguia ver a teologia da forma adequada com que aparecia para mim? Eu estava no caminho correto? Eu não conseguia aceitar a ideia de que a teologia se preocupava sobremaneira com as “coisas divinas” e que as “coisas divinas” deveriam ser interpretadas, lidas e ditas para o bem da sociedade. Para mim a teologia sempre tem a ver com um contexto. Até comecei a suspeitar se o que eu estava fazendo não era uma espécie de ciências da religião, porque a minha preocupação se concentrava não no dizer de Deus, mas no que as pessoas no dia a dia pensavam sobre Deus e como elas expressavam isso. Assim, abandonei o Homem-Aranha naquele momento e acabei me ocupando no mestrado com uma compreensão de teologia que fosse capaz de satisfazer essas minhas angústias pessoais. Naturalmente, existem aqueles que ainda questionam se eu, então, havia feito a escolha correta, porque escolhi o pensamento de Rubem Alves, e Rubem Alves era um dissidente, havia renunciado à teologia e vertido por outros caminhos. Ou seja, eu continuava na contramão do que usualmente se entendia o que deveria ser o saber teológico. Naturalmente, ele fez isso diante um tipo específico de teologia e buscou outros cheiros e sabores que saciavam suas angústias. O fato é que seu pensamento delineou novos horizontes para mim e me possibilitou novas maneiras de pensar a realidade e, inclusive, de compreender a própria Teologia da Libertação. Isso porque o Rubem Alves não pensa em “caixinhas”. Ele é um cozinheiro de palavras nato. Ele mistura as palavras, conceitos e ideias de tal maneira (transdisciplinar) que instigam pensamentos não pensados. Enfim, no mestrado, acabei encontrando em Rubem Alves um pensamento capaz de me auxiliar a pensar novas relações entre a teologia e a vida social cotidiana. Além disso, naturalmente, não posso deixar de dizer que eu tive muito apoio da turma da área de religião e educação que já, na teologia, lida, de uma maneira criativa, na fronteira do saber teológico. Assim, quando ingressei no doutorado (após uma longa caminhada de mais de uma década na EST, desconsideradas idas e vindas) eu já estava certo do que queria, e eu tinha, diante de mim, os recursos para encontrar as ferramentas que pudessem resolver meu problema: a relação entre teologia e histórias em quadrinhos. De uma maneira em geral, eu não tive problemas em apresentar um tema então atípico para a teologia na EST. Em resumo: o contexto da EST enquanto academia e centro renomado de pesquisa é único e sempre me provocou a ir além, tanto para resolver minhas angústias particulares em relação à teologia quanto para buscar um olhar fronteiriço em diálogo com a superaventura. Agora, eu já sou suspeito para falar, mas, em minha opinião, a EST não é só um centro de pesquisa teológica, altamente qualificado, em termos de estrutura técnica (recursos) e pessoal (corpo docente), é um centro de pesquisa que realiza o princípio básico de todo processo educativo segundo Rubem Alves: ela ensina a pensar.


Em que medida as discussões atuais, especialmente àquelas vinculadas ao mundo teológico, também estão inseridas nas histórias em quadrinhos?
Em primeiro lugar, depende do que eu entendo como discussões atuais vinculadas especialmente ao mundo teológico. Posso entender essas discussões como todas aquelas que interferem diretamente na vida humana e na forma como essa vida é vivida, como, por exemplo, a questão da violência, do gênero, dos direitos humanos, da pobreza, isto é, como assuntos implicados diretamente a um jeito particular de se compreender e de se fazer teologia no contexto latino-americano. Mas posso entender também como questões relacionadas à teologia tradicional: vida e morte, ressurreição, a ação de Deus no mundo, a postura ética, os valores cristãos; como posso entender ainda os assuntos considerados nevrálgicos na vida social nos quais as coisas tendem a se misturar e, frequentemente, a se confundir; isto é, os temas cadentes que se tornam zonas de conflito e disputas de poder e de tensão entre o religioso e o secular: aborto, eutanásia, relação homoafetiva, etc. Todos esses exemplos arrolados aqui e uma infinidade de variações podem ser encontrados nas histórias em quadrinhos. Isso porque as histórias em quadrinhos são produções culturais e, enquanto produções culturais, elas são estão inseridas dentro de um contexto e são representantes deste. Mais ainda, as histórias em quadrinhos são  apresentações e representações do mundo. Elas são, na verdade, uma rede imbricada de relações que tensionam o interesse de um grupo, os anseios de um público, a intencionalidade de autores e o universo simbólico-cultural compactuado (ora mais, ora menos) entre eles. Como já afirmei em outras ocasiões, tudo pode ser encontrado nas histórias em quadrinhos sujeito à intencionalidade da narrativa.


A leitura das histórias em quadrinhos consta nos parâmetros curriculares nacionais. Isso significa uma reavaliação em torno do significado e relevância desse material enquanto instrumento educativo, surgido no contexto da emergência da cultura de massa?

Esse é um tema polêmico. Como afirmou Paulo Ramos em uma palestra sobre educação, leitura e histórias em quadrinhos a poucas semanas atrás, por um lado, representa sim um avanço significativo em termos de ensino e de políticas educacionais em relação ao lugar das histórias em quadrinhos. Há um incentivo e até uma obrigação na utilização das histórias em quadrinhos em sala de aula, na produção de material didático, etc. Por outro lado, entretanto, há uma série de limitações, porque esse mesmo lugar das histórias em quadrinhos ainda não está claro aos olhos do governo, uma vez que uma leitura dos últimos editais do Programa Nacional Biblioteca na Escola evidencie uma preferência por histórias em quadrinhos que sejam adaptações de literaturas clássicas. Ou seja, ainda é possível identificar claramente que há um processo de transição e de aceitação das histórias em quadrinhos enquanto histórias em quadrinhos. 


Em que medida os super-heróis e a teologia se encontram no ato de contar histórias, nas histórias em quadrinhos, nos mitos e nas lendas que visam testemunhar a experiência das pessoas em sua relação com a vida e ao mundo religioso?

Super-heróis e teologia se encontram no ato de contar histórias, num contexto amplo, e nas histórias em quadrinhos, num contexto particular, em três perspectivas: uma perspectiva temática, pelo fato de ambas abordarem temas significativamente comuns: a questão da morte, da injustiça, do mal, etc., resguardadas suas particularidades; uma perspectiva metodológica, pelo caráter mítico que permeia as histórias de ambos os “gêneros”, isto é, tanto as histórias de super-heróis quanto as narrativas religiosas e/ou teológicas são, no fundo, rememorações; uma perspectiva ideológica, pelo fato de ambas quererem, dentro da intencionalidade de suas narrativas, apresentar um ideal no real.


O super-herói se aproxima de uma concepção divina? Ele transcende a condição humana ou apresenta fraquezas e problemas que também afligem o ser humano?

É difícil dizer com precisão o que o super-herói é. Ele se aproxima de uma concepção divina? Sim. Ele transcende a condição humana? Sim. Ele apresenta fraquezas e problemas que também afligem o ser humano? Sim. Na verdade, ele pode ser (e na maioria das vezes é) tudo isso ao mesmo tempo, porque ele é um personagem. Enquanto tal, ele é uma paródia de nós mesmos, de quem nós fomos; de quem nós somos; de quem nós sonhamos ser; de quem nós podemos vir a ser. O personagem deriva da mesma raiz de pessoa, persona, que remete a um papel que é desempenhado, uma máscara que é assumida por nós na vida social cotidiana. Enquanto personagem, o super-herói também é um “super-homem de massa”, para utilizar aqui o termo empregado por Umberto Eco, isto é, um herói carismático, individual, que pode ser, ora mais, ora menos, moralmente carregado, típico em um tipo específico de literatura que é produzida e comercializada para uma gama de leitores: o romance de folhetim. Ele se constitui por meio de uma tensão entre os anseios dos leitores e os anseios dirigidos aos leitores.


Finalizada a tese, quais são os seus projetos futuros?

Profissional e academicamente, vou continua envolvido com histórias em quadrinhos. Isto é, desenvolver novos projetos de pesquisa, estreitar as relações interdisciplinares e interinstitucionais com outros grupos e pesquisadores de arte sequencial, bem como desenvolver trabalhos em sala de aula, na graduação e na pós, dentro da minha especificidade: a leitura dos quadrinhos, do cinema, das narrativas contemporâneas, a relação entre teologia e histórias em quadrinhos, teologia e as produções culturais da era contemporânea.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

III Seminário sobre Quadrinhos, Leitura e Ensino // I Fórum Nacional de Pesquisadores em Arte Sequencial




Já faz mais de uma semana que os eventos voltados ao estudo da arte sequencial aconteceram em Leopoldina, mas não posso deixar de postar uma nota a respeito e, compartilhar trechos das palestras (e duas na íntegra) desses eventos importantíssimos para o cenário de estudo de HQ no contexto brasileiro.

Seguem abaixo os links:








sexta-feira, 9 de março de 2012

Defesa da Tese de Doutoramento em Teologia

Foto: Kathlen Luana de Oliveira
Foto: Selenir Kronbauer
No dia 9 de março de 2012, às 8:30h, aconteceu a defesa da tese de doutoramento em teologia do teólogo Iuri Andréas Reblin, sob o título: "A Superaventura: da narratividade e sua expressividade à sua potencialidade teológica". A defesa contou com a participação dos seguintes avaliadores:

Arquivo Pessoal


Profª. Drª. Laude Erandi Brandenburg - (EST) (presidente)
Prof. Dr. Júlio Cézar Adam - (EST)
Prof. Dr. Remí Klein - (EST)
Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro - (USP)
Prof. Dr. Nildo Viana - (UFG)




A tese delineou uma pesquisa pioneira na interface entre Histórias em Quadrinhos e Teologia, conquistando o conceito "A com Louvor". Seguem abaixo alguns comentários dos avaliadores acerca deste evento:

"As Histórias em Quadrinhos não precisam da universidade, mas a universidade precisa das Histórias em Quadrinhos. As Histórias em Quadrinhos não precisam da teologia, mas a teologia precisa das Histórias em Quadrinhos" (Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro)

"É uma pesquisa inédita e de grande relevância não só para a área de religião e educação (estudos culturais e ensino religioso), mas também para a antropologia, sociologia e para a teologia como um todo, principalmente áreas que se ocupam com o diálogo com a realidade, a cultura e a contemporaneidade." (Prof. Dr. Júlio Cézar Adam)

"A temática é instigante e mesmo quem não tem o hábito de ler quadrinhos fica ou pode ficar encantado com sua abordagem" (Profª. Drª. Laude Erandi Brandenburg)

"Trata-se de uma tese inédita, de alto nível acadêmico, marcada e demarcada por uma boa fundamentação teórica e uma profunda reflexão teológica (não ortodoxa)." (Prof. Dr. Remí Klein)

"É um fã que se tornou pesquisador" (Prof. Dr. Remí Klein)

"É um desbravador." (Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro)

"Quando a teologia se permite dialogar com HQs e superaventuras algo se move na terra... Também no céu, com certeza." (Prof. Dr. Júlio Cézar Adam)

"Apresenta uma temática relevante, social e acadêmcia" (Prof. Dr. Nildo Viana).

Arquivo Pessoal

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Entrevista ao Jornal Santuário de Aparecida

Segue abaixo o texto completo da entrevista concedida ao Jornal Santuário de Aparecida no dia 11 de setembro de 2011. Trata-se de uma versão sem cortes da entrevista concedida à Rádio Aparecida no dia 22 de agosto de 2011.

Video-propaganda para TV FIQ (Making of)

Para quem já assistiu ao vídeo-propaganda de 45 segundos para o Festival Internacional de Quadrinhos edição 2011 e curtiu, segue abaixo o making of:

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Video propaganda para o FIQ

Gente, o FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos - está com sua 7a edição aí! Irá acontecer entre os dias 9 e 13 de novembro em Belo Horizonte, MG. É um dos eventos mais tradicionais e significativos do ramo na América Latina. Toda a chance de participar de um evento dessa envergadura é única. Portanto, faça suas malas e participe!

Segue abaixo o link do meu "video-convite motivacional" enviado à TV FIQ:



Se você é fã da nona arte e às vezes "paga mico" por causa de seus super-heróis preferidos, o mico que você não pode pagar é deixar de ao evento! :-)

Se você quer ver outros "videos-convite motivacionais" de outros pesquisadores, quadrinistas, desenhistas envolvidos com a nona arte, clique aqui.

Para acessar o site oficial do evento, clique em "Festival Internacional de Quadrinhos" na lista de links da barra à direita.

O mundo elevado aos quadradinhos

Segue abaixo um trecho e o link da entrevista concedida a Micael Vier Behs, da Faculdades EST, agora publicada na revista “Protestantismo em Revista”.

>>> Iuri Andréas Reblin, doutorando em teologia pela Faculdades EST, coorganizador de Super-heróis, cultura e sociedade: aproximações multidisciplinares sobre o mundo dos quadrinhos (2011) e autor de Para o Alto e Avante: uma análise do universo criativo dos super-heróis (2008) apresenta, nesta entrevista, um universo paralelo, direcionado ao entretenimento, mas calcado no real, repleto de singularidades, poder, magia e fascinação, chamado de “mundo dos quadrinhos”.
Habitado por super-heróis, este mundo ficcional vem cativando gerações desde o início da década de 40 do século passado. Hoje, para além da narrativa de histórias despretensiosas, o gibi também é lugar para o debate de temas delicados como drogadição, DSTs, relação de gênero e homoafetividade.
Constituídos a partir dos ideários e das experiências de seus criadores, Iuri argumenta que os super-heróis são amados pelo que representam: “a coragem, o altruísmo, a disposição para o sacrifício em prol do outro, a determinação, enfim, princípios nobres difíceis de se encontrar ou de se ver espelhado na sociedade em geral”.
Tachadas de pseudoarte por uma elite pensante, as narrativas da superaventura foram, de fato, idealizadas com intuito de divertir. No entanto, sua função lúdica também faz sentir, pensar, refletir e enxergar o mundo a partir das lentes de um personagem inserido num determinado contexto sócio-cultural, com o qual compartilhamos nossos medos, angústias e ambições. É inegável, conforme ressalta Iuri, a identificação do leitor com os valores, desafios e problemáticas enfrentadas por seu super-herói, que, de forma mais ou menos precisa, o faz emergir num universo ficcional nem tão distante daquele vivenciado na cotidianidade. <<<

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Para visualizar o artigo na íntegra clique aqui
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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Debate: Histórias em Quadrinhos e Super-heróis

Debate e lançamento dos livros "Super-heróis, cultura e sociedade: aproximações multidisciplinares sobre o mundo dos quadrinhos" e "Filosofando com os Super-heróis" com os autores Iuri Andréas Reblin e Gelson Weschenfelder, durante a 26ª Feira do Livro de São Leopoldo. O bate-papo aconteceu no dia 07 de setembro de 2011, às 17h. O vídeo abaixo apresenta trechos da conversa (não foi filmado na íntegra).


Confira abaixo algumas fotos do evento:


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Participação nas 1as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos

Apresentação sobre o panorama de estudos sobre o gênero da superaventura (ou gênero dos super-heróis) na Mesa Temática "HQ e História" nas I Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, realizadas na USP, em São Paulo.


Primeiras Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos - ECA-USP


Está acontecendo entre os dias 23 e 26 de agosto de 2011 as 1as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). O evento está contando com a participação de pesquisadores ilustres das histórias em quadrinhos, dentre os quais aqueles que consolidaram o estudo do gênero no país como Álvaro de Moya, Moacyr Cirne, Sonia Bibe-Luyten, etc. Também está apresentando uma infinidade de trabalhos e pesquisas (geralmente de caráter interdisciplinar) sobre temas voltados diretamente à nona arte, provenientes das mais diferentes áreas do conhecimento. Além disso, está havendo o lançamento de inúmeras publicações no evento. Assim como o evento que ocorreu no Recife, há cerca de três semanas atrás, o I Encontro Nacional de Estudos sobre Quadrinhos e Cultura Pop, as 1as Jornadas estão aí para marcar história!!
Imagens do evento deverão ser disponibilizadas no site oficial:
Aqui segue um aperitivo da participação:


 Com Nobu Chien









Com Waldomiro Vergueiro e Paulo Ramos

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

FOLHA.COM: Grupo de acadêmicos "invade" mundo dos super-heróis

Livro multidisciplinar tenta entender o mundo fantástico dos quadrinhos


da Livraria da Folha

Divulgação
Livro multidisciplinar tenta entender o mundo fantástico dos quadrinhos 

Especialistas de diversas áreas das ciências humanas se uniram para tentar decifrar a fascinação e o poder cultural que o mundo dos quadrinhos e das superaventuras despertam nos leitores.


O resultado dessa análise multidisciplinar está em "Super-Heróis, Cultura e Sociedade", livro publicado pela editora Idéias & Letras. As abordagens examinam os super-heróis e seu universo sob aspectos culturais, sociais, psíquicos, políticos e teológicos. 


"Os super-heróis chamam a atenção de crianças e adolescentes porque são capazes de divertir, estimular a criatividade e imaginação e enriquecer os valores culturais, além de estabelecer projeções de papéis sociais", examina Denise D'Aurea Tardeli, psicóloga, pedagoga e doutora em psicologia escolar e desenvolvimento humano pela USP (Universidade de São Paulo).


Os textos foram organizados por Nildo Viana e Iuri Andréas Reblin. Nildo é formado em ciências sociais, filosofia e doutor em sociologia pela UnB (Universidade de Brasília). Iuri é bacharel, mestre e doutorando em teologia pela Escola Superior de Teologia de São Leopoldo (RS).


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"Super-Heróis, Cultura e Sociedade"
Organizadores: Nildo Viana e Iuri Andréas Reblin
Editora: Idéias & Letras
Páginas: 184
Quanto: R$ 21,75 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto. 

[Extraído da Página da Folha]

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Divulgação / Release Livro "Super-heróis, cultura e sociedade"

Super-heróis, cultura e sociedade:
aproximações multidisciplinares sobre o mundo dos quadrinhos.


Já está à venda nas principais livrarias e comic shops do país o livro “Super-heróis, cultura e sociedade: aproximações multidisciplinares sobre o mundo dos quadrinhos”, da Editora Ideias e Letras.

Se todo o ponto de vista é a vista de um determinado ponto, nada melhor que ter em mãos diversas perspectivas e olhares sobre o vasto, plural e até controverso mundo dos quadrinhos. Organizado por Nildo Viana e Iuri Andréas Reblin, o livro conta com a colaboração de nomes como Waldomiro Vergueiro, Denise D’Aurea Tardeli, Edmilson Marques, Valério Schaper, além dos próprios organizadores, todos, fãs confessos de histórias em quadrinhos e especialistas conhecidos em suas áreas de atuação. O livro reúne seis ensaios densos e caprichados sobre o universo dos super-heróis que perpassam abordagens históricas, sociológicas, teológicas e psicológicas. Com linguagem acessível e sem subtrair a iconoclasticidade e o carisma de quem lê quadrinhos, o livro é item obrigatório para quem é fã (confesso ou não) das histórias desses personagens maravilhosos que perfazem o imaginário de bilhões de pessoas ao redor do globo! Tem 184 páginas e o preço sugerido de R$ 25,50. Compre aqui ou aqui, direto do site da editora.

Sinopse oficial da Editora:
"Esta é uma obra que envolve olhares culturais, sociais, psíquicos, entre outros aspectos importantes, no sentido de explicar o mundo fantástico dos quadrinhos, principalmente no que diz respeito ao gênero da superaventura. As abordagens perpassam várias ciências humanas e analisam os super-heróis sob vários aspectos. Assim, os diferenciados textos reunidos no livro permitem uma pesquisa analítica que busca relacionar os quadrinhos com a cultura e a sociedade.

Divulgação no site Universo HQ

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

sábado, 30 de julho de 2011

I Encontro Nacional de Estudos sobre Quadrinhos e Cultura Pop

O I Encontro Nacional de Estudos sobre Quadrinhos e Cultura Pop, cujo site oficial pode ser visualizado aqui, reuniu, pela primeira vez, pesquisadores de diversas áreas sobre o universo das histórias em quadrinhos e da cultura pop em geral. O evento aconteceu concomitantemente ao SuperCon!

Na ocasião, também aconteceu o lançamento do livro "Super-heróis, cultura e sociedade" (compre aqui!), que contou com a participação dos autores dos textos, à exceção da prof. Denise D'Aurea Tardeli, a Mulher Maravilha do grupo; afinal, alguém precisava permanecer na Torre de Vigilância :-) Estiveram presentes (da esquerda para a direita): Valério Guilherme Schaper, Iuri Andréas Reblin, Edmilson Marques, Nildo Viana e Waldomiro Vergueiro.
Outras fotos marcantes:

Com Waldomiro Vergueiro
 Com Sônia Maria Bibe Luyten
 Com Nildo Viana
 Com Amaro Braga
Com Paulo Ramos








Com Natania Nogueira

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Entrevista sobre Super-heróis


FONTE: FACULDADES EST - Clique aqui para acessar o link direto da entrevista.


Iuri Andréas Reblin, doutorando do PPG/EST e co-organizador de Super-Heróis, cultura e sociedade: aproximações multidisciplinares sobre o mundo dos quadrinhos (2011) e autor de Para o Alto e Avante: uma análise do universo criativo dos super-heróis (2008). 

Doutorando do PPG/EST, nesta entrevista Iuri Andréas Reblin apresenta um universo paralelo, direcionado ao entretenimento mas calcado no real, repleto de singularidades, poder, magia e fascinação, chamado “mundo dos quadrinhos”.

Habitado por super-heróis, este mundo ficcional vem cativando gerações desde o início da década de 40 do século passado. Hoje, para além da narrativa de histórias despretensiosas, o gibi também é lugar para o debate de temas delicados como drogadição, DSTs, relação de gênero e homoafetividade.

Constituídos a partir dos ideários e das experiências de seus criadores, Iuri argumenta que os super-heróis são amados pelo que representam: “a coragem, o altruísmo, a disposição para o sacrifício em prol do outro, a determinação, enfim, princípios nobres difíceis de se encontrar ou de se ver espelhado na sociedade em geral”.

Tachadas de pseudoarte por uma elite pensante, as narrativas da superaventura foram, de fato, idealizadas com intuito de divertir. No entanto, sua função lúdica também faz sentir, pensar, refletir e enxergar o mundo a partir das lentes de um personagem inserido num determinado contexto sócio-cultural, com o qual compartilhamos nossos medos, angústias e ambições. É inegável, conforme ressalta Iuri, a identificação do leitor com os valores, desafios e problemáticas enfrentadas por seu super-herói, que, de forma mais ou menos precisa, o faz emergir num universo ficcional nem tão distante daquele vivenciado na cotidianidade.

Confira abaixo a entrevista completa: 

1) De que forma é possível compreender a cultura, os hábitos e os valores de uma determinada sociedade a partir da leitura das sagas ficcionais trilhadas por seus super-heróis? 
Iuri - Simplesmente lendo as histórias. Ao ler histórias de ficção, mergulhamos no universo que nos é contado. Esse universo contado para nós não é moldado a partir do nada, mas é criado com base no modelo que o autor e, num espectro mais amplo, a sociedade em que o autor habita possuem sobre a realidade e suas vicissitudes. Nessa perspectiva, é possível afirmar que as histórias dos super-heróis são uma espécie de “janela da realidade” a partir da qual temos acesso a um mundo ficcional, calcado no real. Esse mundo ficcional se distingue particularmente do mundo real por ser uma versão compacta e limitada a narrativa e suas descrições. Assim sendo, certos valores e hábitos, crenças e princípios, se sobressairão de acordo com a intencionalidade da história. 

2) Teus livros remetem a discussão em torno de grandes áreas do conhecimento, tais como a teologia, a sociologia, a psicologia e a antropologia. Desde quando as histórias em quadrinhos deixaram de ser leitura direcionada ao público infantil? 

Iuri - Desde que esse público infantil leitor de quadrinhos cresceu e continua crescendo, quer dizer, envelhecendo. Para muitos, ler quadrinhos torna-se um verdadeiro hábito. Naturalmente, existe uma infinidade de histórias em quadrinhos e, claro, há aquelas histórias voltadas especificamente para crianças e adolescentes. Entretanto, se estamos falando aqui especialmente do gênero da superaventura, não podemos considerá-lo sem presumir um amadurecimento de autores e leitores.

Quando brinquei que a história em quadrinhos deixou de ser uma leitura direcionada ao público infantil a partir do momento em que seus leitores cresceram há sim um fundo de verdade. Se, do início da década de 1940 até o final da década de 1950, as histórias eram mais despretensiosas, na segunda e na terceira onda (a partir da Era de Prata, mas, sobretudo, a partir da Era de Bronze) as narrativas começam a adquirir cada vez mais um grau de complexidade: temas delicados como a questão das drogas, das doenças sexualmente transmissíveis, principalmente, a AIDS, as relações de gênero, as questões atinentes à etnia, à homoafetividade começam a ser discutidos e abordados cada vez mais nas histórias em quadrinhos. E vale lembrar, como ressaltou Roberto Guedes no início do seu “A Era de Bronze dos Super-heróis”,  a segunda e a terceira gerações de artistas são constituídas, sobretudo, de fãs que cresceram lendo as histórias e sonhavam, algum dia, poder desenhar e escrever as histórias de seus personagens preferidos. Claro que nada impede que crianças comprem quadrinhos de super-heróis e acabem se tornando leitoras assíduas. Entretanto, pela linguagem, pelos temas das histórias, pelo grau de violência e até pela indicação de faixa etária recomendada de algumas edições, as histórias em quadrinhos deixaram, há muito tempo, de ser “coisa de criança”.

Além disso, nunca é demais lembrar que, quando as histórias em quadrinhos foram consagrando seu lugar no mercado, não demorou para surgirem quadrinhos para todos os tipos de gosto: ao lado das histórias infantis, havia as histórias de ficção, as histórias de horror, os quadrinhos eróticos, os policiais e, claro, os quadrinhos de super-heróis, os verdadeiros responsáveis pelo boom dos quadrinhos; enfim, havia diversos tipos de quadrinhos para todos os gostos e para todas as idades.

Os quadrinhos de super-heróis, na verdade, sempre foram mais voltados para adolescentes e jovens e, com o envelhecimento do público originário, adultos também. Não ficarei surpreso quando idosos entrarem na estatística do público consumidor de quadrinhos (risos). Essa mudança de público, ou, antes, sua ampliação, também é perceptível pelo lançamento, cada vez mais corrente, de álbuns de luxo, de edições encadernadas voltadas especialmente para o leitor-colecionador. São edições com papel especial, capa dura que pesam significativamente no bolso do leitor casual. Assim, para resumir, podemos dizer que as histórias em quadrinhos, em especial aqui os quadrinhos de super-herói, já deixaram de ser literatura direcionada ao público infantil há muito tempo.


3) Na sua avaliação, existe uma relação direta entre os valores e preceitos defendidos pelos super-heróis e a constituição da personalidade dos seus leitores? 

Iuri - Acredito que a professora Denise D’Aurea Tardeli, que participa dessa coletânea de textos organizada por Nildo Viana e por mim com um texto intitulado “Super-heróis na construção da personalidade” poderia responder melhor essa questão. Entretanto, pela minha experiência no estudo das narrativas e da narratividade humana – isto é, no ato de contar histórias – e suas relações no processo de invenção do mundo e elaboração da personalidade, eu poderia apontar para a seguinte direção: existe uma relação entre o autor das histórias e as histórias dos super-heróis em si e existe uma relação entre as histórias e o público-leitor. A tua pergunta é se os valores e os preceitos defendidos pelos super-heróis interferem de alguma forma na constituição da personalidade de seus leitores. A resposta é sim e não.

Minha impressão é que a resposta não é precisa, porque ela é subjetiva, depende de cada indivíduo, e a essa dependência também se encontra relacionada a questão da faixa etária. Para a Denise, por exemplo, as histórias de super-heróis podem sim contribuir para o processo de amadurecimento das crianças tanto ao abordar arquétipos quanto ao lidar com emoções e apresentar soluções simbólicas, como ela chama, para os problemas que as crianças – bem como pessoas de outras faixas etárias – enfrentam no cotidiano. Há tanto um ideal quanto uma moral e uma postura ética implicadas nas narrativas dos super-heróis. Como ressaltou Jeph Loeb e Tom Morris no seu texto publicado no livro “Super-heróis e a filosofia”, os super-heróis são exemplos morais para as pessoas, eles mostram o que é certo e o que é errado e quais tipos de escolha são mais adequados a serem realizados.

Nesse sentido, cada vez mais surgem exemplos pitorescos e, por vezes, até preocupantes na mídia em geral. Essa semana [19 de julho de 2011], por exemplo, no Chile, estudantes se vestiram de super-heróis para protestar contra as reformas educacionais propostas pelo presidente Sebastián Piñera. Isto é, eles se revestiram de um poder simbólico que transcende as dinâmicas e as artimanhas políticas, um poder simbólico que remete a um princípio de justiça claro para fazer valer o seu protesto, para que seu protesto seja ouvido. Além disso, anos atrás, uma criança que brincava vestida de Homem-Aranha resgatou um bebê de uma casa em chamas [8 de novembro de 2007], porque é isso que o Homem-Aranha faria e, de fato fez, no segundo filme da trilogia dirigida por Sam Raimi. Sem falar no lado extremo, isto é, nos fantasiados que se tornam vigilantes e realizam boas ações e até evitam assaltos nos Estados Unidos, colocando sua vida em risco; ou mesmo como acontece com muitas outras crianças que não possuem uma distinção clara entre ficção e realidade.

Agora, se considerarmos que o público que lê histórias de super-heróis é mais juvenil e adulto, pode ser que, antes de interferir na constituição da personalidade, a leitura das histórias o faça reconhecer nelas diversos valores e princípios que o próprio leitor considera válidos, isto é, pode emergir antes um processo de identificação reflexiva no leitor. Por exemplo, um adolescente que tem dificuldades de achar uma namorada pode se identificar com certos super-heróis que possuem a mesma dificuldade de sociabilidade e de relacionamentos.

Em qualquer um desses casos, uma coisa é verdade: as pessoas não leriam histórias de super-heróis – e estas não fariam tanto sucesso – se não gostassem delas e se não houvesse nelas ou na comunicação entre ambos um princípio de identificação, quer seja de valores, quer seja de uma história específica que é narrada, quer seja pelo desafio e pelos problemas do Homem-Aranha, quer seja pelos músculos ou pela luta pela justiça do Superman. E, nesse sentido, há um quê de verdade naquilo que a Tia May, no segundo filme do Homem-Aranha, diz para o sobrinho dela e que transcrevi num texto intitulado “A teologia e a saga dos super-heróis: valores e crenças apresentados e representados no gibi”, que foi publicado na Protestantismo em Revista.

A questão por trás da fala da Tia May é por que Henry, a criança vizinha, quer ser igual ao Homem Aranha quando crescer. A Tia May diz o seguinte “Ele conhece um herói quando ele vê um. Há poucos por aí, voando e salvando pessoas idosas como eu. E Deus sabe, crianças, como Henry, precisam de um herói. Pessoas corajosas, altruístas, servindo de exemplos para todos nós. Todos adoram heróis. Pessoas fazem fila para vê-los. Torcem por eles. Gritam seus nomes. E, anos mais tarde, eles contam como ficaram na chuva por horas só para ver de relance aquele que os ensinou a agüentar um segundo a mais. Eu acredito que existe um herói em todos nós, que nos mantêm honestos, nos dá força, nos enobrece e, finalmente, nos permite morrer com orgulho. Mesmo que às vezes tenhamos que estar preparados e desistir daquilo que mais queremos. Até mesmo de nossos sonhos.”

Enfim, as pessoas amam os super-heróis pelo que ele representa: a coragem, o altruísmo, a disposição para o sacrifício em prol do outro, a determinação, enfim, princípios nobres difíceis de se encontrar ou de se ver espelhado na sociedade em geral.

4) Existe algum super-herói tipicamente brasileiro? Em quais aspectos ele difere do estereótipo do super-herói norte-americano? 

Iuri - Existem inúmeros super-heróis brasileiros e os mais conhecidos atualmente, isto é, que eu particularmente conheço e acompanho são Velta, Nova, Cometa, Meteoro, Penitência, Crânio, Cabala, Capitão 7 e O Gralha. Cada um desses personagens possui uma trajetória específica – ao passo que alguns possuem décadas de existência, outros são significativamente recentes – e está constituindo uma mitologia própria, à medida que suas histórias vão sendo publicadas, adquirindo consistência e seus autores e leitores vão se tornando mais íntimos desses mesmos personagens.

Cada um desses personagens é, a meu ver, a sua maneira, um legítimo herói nacional. Porque, afinal de contas, o que constitui a identidade de um personagem de ficção senão o conjunto justaposto e intransitivo de histórias, experiências e ideais herdados por seus criadores? Ou seja, o criador é brasileiro, vive no país, lida com acontecimentos e notícias veiculados pela mídia brasileira – e, embora goste ou admire o cinema americano, as séries de televisão e as músicas importadas e é igualmente influenciado por elas –sua leitura de mundo e seus sonhos partem de um contexto específico, brasileiro, mesmo que esse contexto também tenha um quê de estrangeirismo não exclusivamente, embora principalmente, americano. Talvez não tenhamos especificamente aquilo que podemos chamar de legítimo super-herói brasileiro assim como o Superman ou o Capitão América é para os Estados Unidos. Talvez, o que temos são antes super-heróis locais porque existem muitos Brasis. Temos um super-herói curitibano, uma super-heroína paraibana, um super-herói catarinense, etc. Agora, uma coisa é definitivamente brasileira: a dificuldade financeira em produzir e divulgar, a dificuldade de se tornar conhecido.

A massiva maioria dos quadrinhos nacionais de super-heróis são produções independentes, impressas em papel comum, em preto e branco, vendidas por correio e postadas diretamente por seus criadores, ou são disponibilizadas gratuitamente para download na Internet. E as produções que são publicadas por editoras são edições especiais, sem a periodicidade das revistas de super-heróis americanos. Em outras palavras, atualmente, é muito complicado sustentar um quadrinho de super-herói nacional no mercado.

Agora, retomando a pergunta sobre a tipicidade brasileira e sua distinção com o estereótipo de super-herói do atlântico norte, é importante ressaltar o seguinte: o super-herói enquanto personagem tal como impregnado no imaginário cultural hoje é de fato uma criação estadunidense. Não há como fugir disso. Assim, num espectro amplo, todos os super-heróis são, em maior ou em menor escala, baseados no modelo estadunidense. O que define um super-herói é a missão ou a jornada, o supervilão, o uso do uniforme, os superpoderes. Esses elementos foram se constituindo e definindo o gênero da superaventura, bem como o próprio modelo de super-herói, aquilo que pode ser reconhecido como super-herói, a partir das histórias daquele que foi o precursor de todos: o Superman. Então, numa macroescala, podemos afirmar provocativamente que não há distinção, porque o super-herói é um personagem de ficção típico – criado, gestado, difundido – dos Estados Unidos. Agora, numa microescala, podemos sim reconhecer distinções e estas podem ser as mais diversas, quer seja o enredo das narrativas, quer seja na estética das histórias ou do personagem, quer seja por suas motivações pessoas que o tornaram quem ele é, etc. Enfim, em algumas histórias poderemos identificar mais elementos próximos ao modelo estadunidense, em outras menos. Em todo o caso, esse jogo de diferenciação e semelhança não deve ser a preocupação principal, mas sim se tem uma boa história para contar e se essa história diz um pouco mais sobre nós mesmos e nossas motivações e, principalmente, se ela é capaz de nos divertir. 

5) Em que medida a narrativa da superaventura pode ser considerada enquanto “janela da realidade”? O que enxergamos pelas brechas dessa janela? 

Iuri - A narrativa da superaventura e, num espectro mais amplo, as histórias em quadrinhos em geral, podem ser consideradas “janelas da realidade” à medida que, enquanto histórias, elas retratam o contexto no qual e para o qual são escritas, os anseios de um grupo e as inspirações e as aspirações de uma sociedade. As histórias de ficção sempre são um retrato do real, ora mais nítido, ora mais confuso, pois é essa representação que possibilitará a comunicação e, consequentemente, nosso envolvimento com a narrativa. É nessa direção que Umberto Eco vai afirmar que “os mundos ficcionais são parasitas do mundo real”.  E o que enxergamos por essa janela é justamente a amálgama difusa que é a vida humana.

6) Quais aspectos tipicamente teológicos podem ser observados nas histórias protagonizadas pelo Capitão Marvel e pelo Mago Shazam? 

Iuri - Eu abordo esse tema especificamente no meu texto da coletânea de “Super-heróis, cultura e sociedade”, organizada em conjunto com o professor Nildo Viana, o livro que estamos lançando este mês [julho] e que deve estar nas livrarias no decorrer do segundo semestre deste ano. De uma maneira sintética, para não tirar o prazer daqueles que comprarão o livro e lerão o texto, podemos dizer que os aspectos “tipicamente” – digo tipicamente entre aspas – teológicos se concentram no uso da palavra mágica que transforma os adolescentes no super-herói. Isso porque a palavra é um acróstico formado a partir das iniciais dos nomes das entidades mítico-religiosas que concedem uma fração de seus dons àquele que pronuncia a palavra. Naturalmente, não é qualquer um que, ao pronunciar a palavra, se transforma em Capitão Marvel, é necessário que seja estabelecido um vínculo – na história, isso acontece por meio de um encanto realizado pelo mago – isto é, é necessário que a pessoa seja escolhida, e quem a escolhe é o mago. Então, os aspectos teológicos se delineiam a partir da relação que se estabelece entre essas entidades – Salomão, Hércules, Atlas, Zeus, Aquiles e Mercúrio – e os adolescentes, relação mediada pelo pronunciamento da palavra mágica, e a argumentação da própria narrativa de como essa relação acontece. Entretanto, não é só por essa relação explícita que aspectos teológicos, ou num contexto maior, aspectos religiosos, emergem.

Pensando nas narrativas dos super-heróis como um todo, aspectos teológicos podem emergir de diversas formas, de acordo com a intencionalidade da narrativa, quer seja ao abordar caricatamente o universo do sobrenatural, descrever cenários, quer seja ao apresentar as ações do personagem e as razões dele fazer o que faz. Em qualquer um dos casos, é importante salientar que os aspectos teológicos que serão evocados são expressões de uma teologia do cotidiano; isto é, são expressões de uma teologia que permeia o cotidiano e se confunde nele, uma teologia que é constituída, elaborada e reelaborada pelas pessoas no dia a dia. Isto é, trata-se de uma teologia que pode escapar das artimanhas das instituições e dos limites disciplinares da academia e tem a ver muito mais com as respostas que as próprias pessoas elaboram – e a forma como compreendem – para si diante dos desafios que enfrentam no dia a dia. Nessa perspectiva, é necessário superar e combater a visão disciplinar que temos das coisas a partir da academia. Desse modo, eu posso responder à pergunta de uma maneira totalmente diferente. Eu posso dizer que não há elementos tipicamente teológicos em qualquer narrativa de super-herói. Por quê? Justamente porque, nessas narrativas, magia, religião, mito, cultura, economia, se misturam, se imiscuem, se confundem, se interpenetram. Não é possível separar os elementos de uma narrativa, assim como não é possível fazê-lo na vida real. As representações transcritas nas narrativas são um reflexo, preciso ou não, do mundo em que vivemos. 

7) A partir de um olhar transdisciplinar, teus livros, de certa forma, reconfiguram o lugar clássico ocupado pelo gênero da superaventura enquanto narrativa direcionada ao mundo do entretenimento. Devemos nós, adultos, reler os clássicos em quadrinhos sob outro ponto de vista? 

Iuri - Não. Nós devemos ler as histórias em quadrinhos como sempre lemos, para nos divertir com as tramas. É esse o propósito dessas histórias. Se lermos as histórias em quadrinhos buscando toda vez dissecar as narrativas, as histórias em quadrinhos perderão seu brilho e seu encanto. O Superman vai se tornar tão chato quanto ler a Introdução ao Antigo Testamento de Werner Schmidt na graduação em teologia, que é uma leitura obrigatória. A própria leitura perderá a graça. As narrativas da superaventura são entretenimento e estão voltadas ao mundo do entretenimento. Agora, isso não significa que, por causa desse propósito, elas devem ser desprezadas ou discriminadas tal como aconteceu décadas atrás, ou ainda consideradas irrelevantes pseudoarte, porcaria, por uma elite pensante, científica, acadêmica. Ao contrário, cada vez mais pessoas e instituições têm descoberto e redescoberto o potencial das histórias em quadrinhos. E, ao lermos as histórias em quadrinhos para nos divertirmos, nos distrairmos, temos que ter em mente – e aí entra em jogo essa ideia de reconfiguração do lugar clássico – que as histórias em quadrinhos, as narrativas dos super-heróis são histórias que contamos de nós mesmos para nós mesmos, pensando aqui num sentido paradoxalmente amplo e particular. Elas são uma espécie de retrato do mundo, de uma visão de mundo, de uma sociedade, de um grupo. É justamente nesse propósito de se reconfigurar o lugar clássico das histórias em quadrinhos e de se atentar para a diversidade criativa de suas histórias que livros sobre esse universo fantástico são escritos. E é nessa perspectiva que devemos levar essas histórias a sério, porque o ser humano é justamente formado, como disse anteriormente, por essa justaposição imprecisa e intransitiva de histórias que herdamos, incorporamos, adaptamos e transformamos. É nessa direção que pensadores como Jorge Larrosa, Umberto Eco, Rubem Alves e outros vão associar a constituição do ser humano – de ele ser quem ele é –  com um palimpsesto. E quem disse que é só com as coisas sérias que se aprende? O entretenimento não é algo vazio, destituído de aprendizagem, reflexão e sentido. Devemos superar essa distinção entre o funcional e o não-funcional. Devemos compreender o entretenimento de outra forma e entender que, no lazer, nós não cessamos de sentir, pensar, refletir. E essa é uma das percepções singulares de Rubem Alves ao defender uma educação lúdica. 

8) Qual vem sendo a reação do público ao se deparar com narrativas que resgatam temas como religião, cultura, comportamento e crenças a partir de histórias de super-heróis? 

Iuri - A reação do público é a mesma que tem sido ao longo de todos os anos anteriores, porque o importante é a história que é contada, lida e reinterpretada. As pessoas não lêem as histórias dos super-heróis esperando lá encontrar temas como religião, cultura, comportamento e crenças. Elas querem se divertir, se entreter, espairecer. Elas querem saber o que está acontecendo com seu personagem preferido, querem torcer por ele, chorar por ele, se preocupar com ele e ver como o super-herói, em sua jornada, enfrentará e vencerá os desafios que surgirem diante dele. À parte das histórias que possuem pretensamente a intenção de abordar um tema religioso – algo que é geralmente bastante pontual e até significativamente raro nas narrativas dos super-heróis – a presença de elementos ou temas religiosos acontece antes de forma muito mais sutil e casual, na abordagem de temas como esperança, altruísmo, justiça, ética, e de como o autor costura as argumentações em torno desses temas. 

9) Qual é o teu grande super-herói? Por quê? 

Iuri - Acho que essa é a pergunta mais difícil de responder (risos). Meu grande super-herói depende do dia, do momento e do meu humor. Entretanto, de uma maneira em geral sempre me senti mais atraído pelos personagens da DC Comics. Apesar de umas escapulidas e de umas espiadas na concorrente Marvel, eu me considero um decenauta legítimo. Eu cresci assistindo os desenhos da Hannah-Barbera e da Filmation, assistindo seriados na televisão como o Batman da década de 1960, Shazam, Superboy, além de Hulk, Homem-Aranha, no decorrer da década de 1980 e The Flash e Lois & Clark na década de 1990. Uma das imagens mais surpreendente da infância foi quando assisti o Superman de Christopher Reeve numa televisão em preto e branco na Sessão da Tarde e descobri, posteriormente, os robôs dos Tokusatsu japoneses, com o perdão da redundância. Claro que não passei minha infância toda na frente da televisão. Na verdade, os horários estipulados para assistir televisão eram restritos e definidos segundo uma grade de tarefas – fazer dever de casa, brincar na rua, etc. Mas os super-heróis sempre me acompanharam nos mais diversos momentos da vida, nas brincadeiras, nos gibis que eu comprava e lia. Enfim, fazem parte do meu imaginário. Assim, dependendo do dia, do momento e do meu humor, me volto mais a um ou outro personagem. Em todo o caso, para nomear os personagens que mais me interessam, posso afirmar que sou um grande fã de uma tríade que oscila em preferência: Superman, Capitão Marvel e Mulher Maravilha. Naturalmente, Superman é o personagem mais constante. Entretanto, em pé de igualdade está o Capitão Marvel, com quem tenho me ocupado significativamente nos últimos anos, e a Mulher Maravilha, a qual, juntamente com a Supergirl e, numa escala menor, as Aves de Rapina e o Lanterna Verde têm me divertido nas horas de folga. Por quê? É difícil dizer racionalmente. Vamos dizer apenas que sempre tive um apreço maior por histórias que envolvem ficção, magia e mitologia. Nessa direção, acho que, se houvesse atualmente um gibi do Capitão Marvel, eu seria o primeiro a esperar na banca. Portanto, no momento desta entrevista, a tríade está mais para a seguinte ordem: Capitão Marvel – Mulher Maravilha – Superman (risos). 

Jornalista Responsável: Micael Vier Behs

Data de publicação da entrevista no site: 27 de julho de 2011.

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Fonte: Site Oficial da Faculdades EST